Toda a verdade sobre as férias

pintura Sorolla

O periodo de fuga

Ano após ano, chega o verão e as grandes cidades esvaziam-se, as estradas enchem-se de carros e as melhores praias parecem autênticas colónias de pinguins. Queremos fugir, em bando, para um tempo e um lugar que nos ajude a desligar do stress do trabalho e dos colegas tóxicos, das rotinas e responsabilidades diárias, porque já nos cansámos delas, na verdade, muitos meses atrás.

Será este hábito anual um mero capricho nosso ou precisaremos realmente de férias? Para quê? Para abafar algum sentimento de desconforto laboral? Para sermos mais produtivos quando voltarmos? Para nos lembrarmos de como é a vida fora do escritório e longe do trabalho? Para sermos mais felizes no geral?

Deixe-me partilhar consigo algumas ideias.

A Natureza é composta de ciclos

Tudo na Natureza é cíclico e ondulante: as estações do ano, as marés altas e baixas, as migrações das aves, a hibernação de alguns mamíferos, até as plantas têm periodos de crescimento e paragem… Já tinha pensado nisso?

E nós, humanos, não somos diferentes. Somos filhos da Natureza e não podemos fugir à nossa qualidade cíclica. Vejamos: todos nascemos e morremos, e, no meio, passamos por fases de crescimento, estabilização e declínio; precisamos diariamente de 16h de vigília + 8h de sono para sermos produtivos; as mulheres sentimos os ciclos hormonais a cada 28 dias; e a lista continua…

We are oscillatory beings in an oscillatory universe. Rythmicity is our inheritance (Jim Loehr)

Desde sempre a "hackear" o sistema

Desde que o Homem é Homem tentou dar bom uso às suas faculdades mentais para fugir à parte mais difícil da sua existência.

Ponha-se por instantes na pele de um mamífero sem inteligência superior e imagine a sua realidade: passaria os dias em tarefas básicas, cíclicas e necessárias para a sobrevivência como: procurar alimento – comer – estabelecer relações sociais – reproduzir-se – dormir. Seria normal morrer nas garras de um predador, por uma infeção qualquer, ou de sede num ano de seca.

Repare, no entanto, como nós, humanos, andamos a desafiar a Natureza desde que temos inteligência: aprendemos a cozinhar, a cultivar alimentos, a domesticar animais, a funcionar em sociedades estruturadas mais complexas que as tribos, desenvolvemos a cultura e a literacia, descobrimos vacinas, criámos métodos anticonceptivos que nos permitem planear uma família… Fizemos a nossa história e construímos a nossa civilização lutando contra as leis da Natureza. 

Acresce a extraordinária revolução digital mais recente, que fez desvanecer — num sopro na escala evolutiva —, as barreiras do tempo e do espaço. Através de esta hiperconexão podemos hoje, com clareza e em tempo real, comunicar com alguém a milhares de quilómetros; ou até ver em qualquer momento, num dispositivo eletrónico, vídeos de pessoas que já morreram… aproximando-nos assim da imortalidade.

Aparentemente conseguimos dominar quem nos criou, achamo-nos no topo da pirâmide, acreditamos sermos donos de tudo o que não é humano. Brincamos aos deuses todos os dias, a toda hora.

A nossa energia

Contudo, essa sensação de divindade é apenas uma ilusão. Evolucionámos e criámos coisas fascinantes, mas continuamos a ser, como tudo na Natureza, regidos por ciclos de energia. É ela quem comanda o nosso funcionamento e bem-estar enquanto humanos.

Por isso, alternar frequentemente periodos de esforço com fases de descanso é absolutamente crucial para sentirmo-nos vivos. O ditado inglês “Work hard, play hard”, tem as suas raízes nesta verdade simples mas profunda:

Demasiado gasto de energia sem recuperação leva ao esgotamento e à quebra do sistema; pelo contrário, demasiada recuperação sem suficiente esforço provoca atrofia e fraqueza.

No fascinante e recomendável livro “The Power of Full Engagement“, os autores Jim Loehr e Tony Schwartz, demostram como gerir a nossa energia é a chave para obtermos alto desempenho e renovação pessoal, o qual nos permite ser os protagonistas de vidas equilibradas e bem sucedidas.

Se pensarmos bem, é uma verdade óbvia: Como poderemos continuar a trabalhar a pleno rendimento se tivermos o combustível no mínimo?

Quando o tanque esvazia

Durante muitos meses damos tudo de nós: privamo-nos do sono, queremos ser os melhores profissionais, espalhar uma missão ou deixar um legado, cuidar de uma casa e dos nossos filhos, criar e alimentar relações, fazer desporto, manter-nos a par das notícias e tendências culturais…. Tentamos chegar a tudo! E a nossa energia vital, o combustível que nos move, simplesmente… esgota-se.

Quando chegamos a esse ponto crítico, colapsamos: perdemos a produtividade e a noção das prioridades porque perdemos a perspetiva, não conseguimos ver nada com olhos frescos. Tudo fica viciado e cansativo… Precisamos de descansar e atestar o tanque da nossa energia.

Renovar a energia, como?

Se lhe restava alguma dúvida, espero tê-lo convencido de que verdadeiramente precisamos ciclicamente de periodos de descanso (fins de tarde, fins de semana, férias e feriados) para encher-nos de vida outra vez. Mas… como poderemos fazê-lo durante as férias?

Voltando a ser um pouco animais. Lembra-se do mamífero de que lhe falei há pouco? Ele pode dar-nos algumas dicas do que fazer com os nossos dias para nos sentirmos novamente vigorizados:

  • Dormir o que o corpo precisa;
  • Assegurar uma alimentação e hidratação completas;
  • Fortalecer os vínculos com a nossa família e amigos.

Sendo ainda mais humanos do que muitas vezes somos:

  • Apreciar os momentos em companhia e a sós;
  • “Desvirtualizar-nos”, ou restringir a internet a doses atómicas;
  • Ler um bom livro, que nos abstraia de nós próprios;
  • Maravilhar-nos com a natureza: a praia ou a montanha, os parques e as paisagens;
  • Sentir gratidão por estar vivo e pertencer.

Se fizer isto tudo não me restam dúvidas de que voltará de férias retemperado e com maior consciência de si próprio. Já foi demonstrado que também aumentará o seu foco, a sua criatividade e produtividade no trabalho. Além disso, estará mais em paz com a sua alma e com a sua família (ambas andavam a precisar de mimos seus).

Após um periodo de recuperação, passamos da mentalidade de FAZER à de SER, e isso reflete-se em todas as dimensões da nossa vida.

Passamos de fazer coisas de pais para sermos pais, de fazer coisas de trabalho para sermos profissionais, de fazer coisas nossas para sermos nós.

Afinal, é nos periodos de descanso que se nutre o amor e a conexão com os outros e connosco próprios.

Conseguiremos ciclicamente lembrar-nos disto?

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