O produto que não cabe na caixa

PRODUTO QUE NÃO CABE NA CAIXA

Este post foi escrito no LinkedIn a 26 de Junho de 2019. 
Publico-o hoje porque, um ano de intenso trabalho depois, tirei algumas lições… 

Lê até o fim. 

Recentemente, o Martim Mariano, a quem sigo nesta rede com gosto desde há dias, escreveu um post dos mais honestos e corajosos que já vi, em que mostra o passado dele como uma série de escolhas erradas.

Felicitei-o pela audácia de assumir tais “erros” publicamente, puntualizando que os enganos são, na verdade, caminhos tortuosos que nos levaram a ser o que somos hoje. Como resposta da parte dele, veio uma pergunta: o que é que foi mais difícil no meu processo? A minha resposta:

Por fim consegui entender, assumir e interiorizar que nunca iria encaixar na norma… e tirar partido disso.

Passo a contar-vos o meu sinuoso percurso profissional.

Estudei “Ingeniería de Montes” na Universidade de Valladolid (uma espécie de Engenharia Florestal mais pesada, de 5 anos + 2 anos de projetos), mas vim para a Portugal, onde, o curso mais parecido não tinha na altura (nem lamentavelmente tem hoje) qualquer futuro profissional. 

Enveredei por algo mais tecnológico e fiz um Mestrado na Universidade Nova de Lisboa, em Sistemas de Informação Geográfica. Ai era eu a estrangeira, a que estudou algo que não servia, mas ainda albergava a esperança de que uma nova formação redimisse os meus pecados…

Para ganhar uns trocos e dar azo a minha paixão por línguas, comecei a fazer traduções técnicas para agências de tradução, uma vez que ai sim, os meus estudos permitiam-me trabalhar com textos que muitos tradutores não conseguiam, mas atenção: eu não era tradutora e parecia-me desonesto começar a considerar-me como tal!

Depois, ao vir para Coimbra, calhei numa grande empresa de tecnologia que trabalhava com SIGs, mas da óptica do programador e não do utilizador (era a vertente do meu mestrado), e eu acabei por ser… aquela que tapava buracos aqui e acolá, nos testes de software, na gestão de produto, e sobre tudo no marketing, sem nunca o ter estudado. Continuava sem encaixar…! Depois ainda passeis por outras empresas que me deixaram outras tantas experiências e lições importantes… mas sempre como peixe fora da água.

Arrisquei e fiz o MBA da Univ. de Coimbra. Nesta altura eu já queria ser mãe, e não tinha como sê-lo trabalhando por conta de outrem — por não terem muitas empresas deste país horários decentes compatíveis com a família e políticas de conciliação… Devo ter enviado muitas dezenas, se não centenas, de “Propostas de colaboração”, sem receber qualquer resposta. Estava claro: não encaixava em lado nenhum!

Até que uma boa amiga, a Emma Crabtree, falou-me do conceito de Assistência Virtual. Testei, arranjei alguns clientes, fui compaginando tradução, assistência e maternidade. Foram tempos duros de passar muito sono e duvidar muito de mim própria.

Com o segundo filho, veio a clareza de querer ser a dona da minha vida, sem ter de pedir desculpas por existir e até onde a vida me trouxe. Decidi montar o meu negócio para prestar serviços a profissionais e dar emprego a pessoas que, como eu, são qualificadas mas não “encaixam” nas normas. A tradução continua a ser uma paixão, e evolui para livros relacionados com marketing e coaching (com mais paixão ainda!).

Estes anos trouxeram-me muitas experiências, aprendizagens, e contactos, mesmo trabalhando por conta própria e a partir de casa; e estou imensamente grata às centenas de pessoas que se cruzaram neste meu tortuoso caminho, porque é graças a todas elas que tomei esta decisão.

Hoje estou a crescer, orgulhosa do meu percurso —em vez de envergonhada como estive durante anos. Tenho a liberdade que preciso, e sinto-me realizada. É claro que ainda tenho muitos receios e dúvidas, e por vezes, medo. Mas acordo todos os dias com vontade de fazer mais e melhor pelas pessoas que confiam em mim, sempre empolgada com o projeto que vem a seguir!

Os tempos não são fáceis, a sociedade impõe caminhos impossíveis, que na verdade, nada têm a ver com a nossa felicidade.

O segredo é deixarmos de ser os coitadinhos que se enganaram, os pobrezinhos a quem ninguém deu uma oportunidade. 

É acreditarmos naquilo em que somos bons (que não é necessariamente aquilo que estudámos), desistir finalmente de entrar na caixa, e ir enfrente! 

POST-EDIT (Julho 2020):

Hoje em dia, tendo o meu projeto novos clientes, 40% mais da faturação e um projeto de formação de AV online, parece-me MUITO claro que o segredo não é apenas desistirmos de caber na caixa… 

O SEGREDO É CRIARMOS A NOSSA PRÓPRIA CAIXA!

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